terça-feira, 17 de junho de 2008

VÍDEO: LAMPIÃO E LANCELOTE - FERNANDO VILELA

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SEMINÁRIO: AS MIL E UMA NOITES


Por Aline Moreira da Silva Tafner

A origem de uma literatura voltada para crianças com o intuito de muito mais do que entretê-las, mas de educá-las, remonta de uma coletânea hindu denominada Calila e Dimna (Kalila wa Dimna). Esta obra é derivada de três livros sagrados: o Panchatantra, o Mahabharata e o Vischnosarna. As histórias contidas nesses livros, eram usadas pelos primeiros pregadores budistas para disseminar a doutrina de Buda, assim como as parábolas de Cristo servem para disseminar a moral cristã (Alves, 2007).
Calila e Dimna foi escrita originalmente em sânscrito e graças à versão árabe do século VIII d.C. espalhou-se pela Europa e posteriormente pela América. No prefácio do livro (Challita,s/d, pp. xiii) podemos encontrar alguns mitos sobre a origem e a descoberta das histórias de Calila e Dimna. Aquela que considero mais interessante é contada por Al-Farissi e resumidamente é a seguinte:

No século VI a.C. a Índia era governada por um rei chamado Dabshalim, considerado um déspota sanguinário. Báidaba, um grande filósofo e chefe dos brâmanes, revoltou-se com os mandos e desmandos do rei, e convidou-lhe a tomar o caminho da eqüidade, traçado pelos governantes anteriores. O rei ficou furioso e mandou prender o filósofo. Porém, o rei impressionou-se com a vasta cultura de Báidaba e pediu que o filósofo escrevesse um livro sobre que condutas um soberano deveria adotar para fazer a felicidade de seus súditos e, ao menos tempo, defender-se do inimigo. Deveria ser um livro que ensinasse toda a sabedoria humana. O filósofo, com a ajuda de seus discípulos escreveu Calila e Dimna. O rei, admirado pelo conteúdo do livro, desceu de seu trono e convidou o filósofo a ocupá-lo. Este, porém, declinou o convite. O livro foi zelosamente guardado e passado de governante a governante até que, um médico, Barzauaih, que buscava um remédio para ressuscitar os mortos (uma metáfora que representava os ignorantes), conseguiu uma cópia.

Calilia e Dimna são os nomes de dois chacais, vassalos do leão, rei da comarca, que muito perturbou-se com o aparecimento de um boi em seu reino. Calila e Dimna, observando a atitude do rei que se recolheu na sua toca, começam a contar histórias recheadas de sabedoria política. Os provérbios são presença marcante neste livro, que através de uma linguagem popular e facilmente memorizáveis, transmitem uma moral e uma norma de conduta.
Também com um intuito de transmitir uma moral e norma de conduta temos as histórias das Mil e Uma Noites, que ocupam um lugar igualmente importante na história da literatura infantil. Tanto a versão árabe de Kalila wa Dimna, quanto as Mil e Uma Noites, apresentam recursos estilísticos semelhantes aos do Panchatantra: a presença do em árabe se chama “matal”, que pode ser traduzido como “paradigma” ou “história exemplar”(Jarouche, 2005 pp.21); além disso temos a existência de uma história central na qual estão inseridas histórias secundárias e exemplares (Fujikura. s/d). Jarouche (2005 pp. 22) define o que são “histórias exemplares”: “Podem ser consideradas ‘histórias exemplares’ as que, baseando-se num sistema de metáforas e analogias que mantêm uma relação de espelho com seu contexto de enunciação, têm a função de mover alguém a praticar determinada ação ou então demovê-lo de praticá-la. As histórias exemplares são um discurso de autoridade e pretendem provar que a inobservância de suas proposições resulta em prejuízo (...)”.
A história central das Mil e Uma noites conta como Sheherazade começou a narrativa das histórias que dão o título ao livro, que segundo Jarouche (2005 pp. 9) “são fábulas de terror e de piedade, de amor e de ódio, de medos e de paixões desenfreadas, de atitudes generosas e de comportamentos cruéis, de delicadeza e de brutalidade”.

As Mil e Uma Noites, Calila e Dimna e a imagem da mulher:
Tanto na história central das Mil e Uma Noites como em alguns contos deste mesmo livro e de Calila e Dimna, podemos notar a colocação da mulher num local bem peculiar. Para desenvolver melhor esse tópico, retomaremos, resumidamente, a história de como Sheherazade começou a contar suas tão famosas histórias.
Conta-se que em tempos remotos, havia dois reis irmãos: Shahriár e Shahzamam. Após permanecer 10 anos sem encontrar o irmão, Shahriár manda seu vizir - pai de Shehrazade e Dunizarde – ir ao encontro do irmão e trazê-lo, para matarem a saudades. Shahzamam aceitou imediatamente o convite do irmão. No dia da viagem, foi visitar o vizir que estava instalado nas cercanias da cidade e com ele ficou até mais tarde. Retornou ao seu palácio para despedir-se de sua esposa e a encontrou deitada na cama abraçada ao rapaz da cozinha (na versão egípcia, consta que era um escravo negro). Shahzamam tira uma importante conclusão: “Não é mesmo possível confiar em mulheres” (Jarouche, 2005 pp. 40). Possuído por uma cólera terrível, o rei matou ambos e os atirou na vala que circundava o palácio. Em seguida, voltou para onde se encontrava o vizir e partiu rumo ao reino do irmão.
Ao chegar, Shahzamam ficou instalado num palácio de hóspedes cujas janelas davam para o jardim e o palácio do irmão. Shahzamam passava todo o dia com o irmão e ao anoitecer, recolhia-se ao seu palácio para remoer seu sofrimento por ter sido traído pela esposa e mortificava-se pensando: “O que me ocorreu não ocorreu a mais ninguém” (ibid, pp. 41). Parou de comer e a palidez tomou conta de sua face.
A mudança do irmão não passou despercebida por Shahriár que supôs tratar-se da falta que Shahzamam sentia dos seus e do seu reino. Convidou-o, então para uma caçada, mas Shahzamam declinou o convite e Shahriár partiu sozinho. Todos no palácio pensavam que Shahzamam havia viajado. Este passava seus dias olhando pela janela até que certa vez, viu uma porta do palácio de seu irmão abrir-se e dela saíram sua cunhada (que rebolava) e 20 criadas: 10 brancas e 10 negras. Ao chegarem ao sopé do palácio de Shahzamam, todas tiraram as roupas e ele pôde ver que na verdade eram 10 criadas brancas (concubinas de Shahriár) e 10 escravos negros. Eles se agarravam enquanto a cunhada chamava por um escravo negro que rapidamente pulou da árvore e a possuiu até o meio-dia. Depois todos se lavaram, vestiram-se e retornaram ao interior do palácio, enquanto o amante da cunhada pulou o muro e foi embora. Shahzamam libertou-se das suas aflições ao presenciar o que ocorrera, pois constatou que seu irmão tinha uma sorte pior do que a dele. Voltou a se alimentar e as cores voltaram ao seu rosto.
Quando voltou da caçada, Shahriár notou a mudança do irmão e quis saber a qualquer custo o que acontecera para ter feito Shahzamam debilitar-se e o que o fizera recuperar o viço. Shahzaman pede ao irmão que não o obrigue a relatar o que aconteceu na sua ausência, mas Shahriár lhe diz que era imperioso que o irmão lhe contasse. Então Shahzamam lhe conta as “perfídias femininas” (ibid, pp. 44) de sua mulher, de sua cunhada e suas concubinas. Shahriár fica encolerizado e diz que só acreditaria vendo. Então ele e o irmão forjam uma nova caçada e ambos ficam escondidos observando a movimentação do jardim. Quando o dia amanheceu eles viram a cena contada por Shahzamam se repetir. Shahriár abandona seu reino na companhia de seu irmão, dizendo só regressar quando encontrasse alguém com uma sorte pior do que a dele.
Um dia, enquanto caminhavam discutindo sobre as desgraças que lhes sucederam, ouviram um brado violentíssimo vindo do mar que se fendeu, dele saindo uma coluna negra que cresceu até os céus. Muito assustados os dois irmãos esconderam-se no alto de uma árvore e viram um ifrit sair das águas carregando na cabeça um baú de vidro com quatro cadeados de aço. O ifrit depositou o baú no pé da árvore onde estavam os irmãos, abriu-o e dele saiu uma formosa mulher a quem o ifrit disse: “Ó senhora de todas as mulheres livres, a quem seqüestrei na noite de seu casamento, eu gostaria agora de dormir um pouco” (Ibid, pp. 47). Ela sentou-se e o ifrit deitou-se depositando sua cabeça nas pernas da jovem. Então a jovem esperou o ifrit dormir, olhou para cima e avistou os dois irmãos na copa da árvore. Ordenou-lhes, através de códigos, que descessem sob a ameaça de acordar o ifrit que os mataria. Os dois obedeceram. A jovem ordenou que os dois a possuíssem, também sob a ameaça de acordar o ifrit. Os dois, apavorados, fizeram o que a mulher disse e , esta, ao final, pediu que cada um lhe desse um anel, os quais ela depositou num saco onde já havia outros 98 anéis (570, na versão egípcia), todos de homens que a possuíram em circunstâncias semelhantes. Disse aos irmãos que o ifrit não sabia que não se pode escapar do Destino e nem que, “quando uma mulher deseja alguma coisa, ninguém pode impedi-la” (ibid, pp. 48). Os irmãos partiram e então Shahriár disse ao irmão que poderiam regressar ao seu reino, pois o ifrit possuía uma sorte pior do que a deles.
De volta ao reino, Shahriár exigiu que seu vizir matasse sua esposa e ele mesmo se encarregou de matar suas concubinas. Decidiu que não ficaria casado por mais que uma noite, mandando sua esposa na manhã seguinte às núpcias, para manter-se a salvo da perversidade e perfídia femininas. Shahzamam voltou ao reino e Shahriár casou-se com a jovem filha de um nobre. Isso permaneceu por um tempo até que as jovens começaram a escassear. Então, Sheherazade, filha do vizir, diz ao pai que gostaria de casar-se com o rei para salvar as mulheres do reino desta sina terrível. O pai, a contragosto, casa a filha com Shahriár. Sheherazade, na noite de núpcias, pede ao rei que lhe traga sua irmã para que possa despedir-se, pois ela é ainda muito pequena. O rei acata ao desejo da sua esposa e quando Dunizarde chega aos aposentos da Irã, pede que esta lhe conte uma bela história e Sheherazade começa suas narrativas que se estenderão por mil e uma noites.

A história central das Mil e Uma Noites, assim como diversos contos da obra completa, é recheada de elementos eróticos. A versão de Galland, publicada em 1704 possuía apenas 350 histórias, pois aquelas consideradas impróprias pela moral da época, incluindo as que apresentavam erotização, foram censuradas (Alves, 2007). Notar que a mulher presente nos contos de Sheherazade e Calila e Dimna são sensuais e provocantes não acrescenta muito, porém é extremamente curioso notar qual o uso que fazem dessa sensualidade e, do ponto de vista moral, em qual lugar são colocadas.
As duas obras em questão são compostas por histórias que têm um caráter formador e pedagógico, portanto não se pode ignorar uma suposta mensagem sobre as mulheres passada por essas duas obras. Além da história central das Mil e Uma Noites, temos outras histórias com personagens femininos, que não são, digamos, um exemplo dos bons costumes para os códigos morais mais rígidos. No primeiro volume das Mil e Uma Noites (Jarouche, 2005), podemos destacar as seguintes histórias: “O Rei das Ilhas Negras e sua Esposa” (pp. 99), “O Carregador e as Três Jovens de Bagdá” (pp. 110). Em Calila e Dimna (Al-Mukafa, s/d), temos uma mulher semelhante a das histórias das Mil e Uma Noites nos contos: “O Eremita, O Ladrão, A Raposa e a Mulher do Sapateiro” (pp. 15); “A mulher, o pintor e o escravo” (pp. 55) e o “Carpinteiro enganado pela esposa” (pp. 104).
Tais mulheres se caracterizam por uma extrema sensualidade e astúcia, que as levam a cometer atos condenáveis pela charia (lei islâmica – regras derivadas do Alcorão) (Araújo, s/d). Na história central das Mil e Uma noites, a mulher de Shahzaman, a esposa de Shahriár, suas concubinas e a jovem seqüestrada pelo ifrit cometeram o adultério. As esposas dos reis e as concubinas foram mortas evidenciando um aspecto importante contido nas obras: como se fazia justiça na época. Na Arábia pré-islâmica, a justiça era feita através da Lei de Talião e depois foi substituída pela charia. No Alcorão o adultério deve ser punido fisicamente (lapidação e flagelos)e no caso da mulher a punição é mais severa.
Fujikura (s/d) faz um levantamento dos provérbios contidos em Calila e Dimna e muito interessante foi achar aqueles que falam especificamente das mulheres:
“Quando se fala com homem se olha nos olhos, com a mulher se olha na boca”.
“Querer matar o amigo por causa de mulher não é das obras que a Deus apraz.”
“As mulheres não merecem que se faça traição por elas – e o homem deve fiar-se muito pouco nelas.”
“Não confie no céu de março, mesmo que ele ria; não confie na mulher, mesmo que ela chore.”
“O amor é a ilusão de que uma mulher é diferente das outras.”
“Dizem que a prata se prova no fogo; os amigos, em sua lealdade em dar e receber; a força do animal na carga pesada; mas as mulheres… não há com que se possa provar.”
“Os reis, em sua pouca verdade e lealdade para com seus vassalos e não se preocupando se os perdem, são como a mulher que, se deixa um, logo vem outro no lugar”.
“A mulher não é senão pelo marido.”
“Três coisas são inúteis: rio que não tem água; terra que não tem rei; mulher que não tem marido.”
“Três são os que devem ser escarnecidos: o que se gaba de ser corajoso; o que luta mas não apresenta sinal de ferida; o que finge saber a lei e se diz religioso, mas é corpulento e pescoçudo; a solteira que zomba da casada; o que fala do que já foi feito.”
“Malandro é o sapo que casa e leva a leva a mulher para morar no brejo.”
Ao ler os provérbios acima formamos uma imagem das mulheres como fofoqueiras, voluntariosas, caprichosas, não confiáveis e indignas de qualquer sacrifício.
Sheherazad, através de sua astúcia e suas palavras acabada assumindo um papel diferente das mulheres já citadas. Ela assume uma postura de redentora determinada; e neste aspecto, a frase dita pela jovem seqüestrada pelo ifrit se aplica: “quando uma mulher deseja alguma coisa, ninguém pode impedi-la” (Jarouche, 2005 pp. 48). Sheherazade conseguiu não só convencer seu pai a casá-la com o cruel rei Shahriár, como evitou que este a matasse, como fez a tantas outras mulheres. Ela utilizou suas palavras e sua beleza para negociar sua vida junto ao rei. Com suas histórias, a heroína acalmou a cólera de Shariár e libertou as jovens que seriam condenadas pelo ressentimento do rei. Se lermos por outro prisma, Sheherazade educou o rei que matava barbaramente jovens, amargurado pelo que lhe aconteceu. Desta forma, a princesa acaba se aproximando de um papel de mãe.
Haddad (s/d) considera que, de certa forma, Sheherazade submetia o rei a uma espécie de psicanálise peculiar: ao invés do rei ter que falar era ela quem falava. Suas histórias não eram ingênuas, continham passagens as quais diziam respeito a situações que o próprio rei poderia identificar-se e elaborar sua raiva. O autor ainda sugere que psicanalistas meditem sobre essa nova técnica. Safra (1984) apresenta seu trabalho de mestrado no qual fazia algo muito semelhante à Sheherazade: a partir de algumas entrevistas com crianças e seus pais, o psicanalista formulava histórias muito parecidas com fábulas infantis sobre o problema apresentado pela criança. Contava essa história aos pais com a seguinte instrução: estes deveriam contar a história para a criança todas as noites e sempre que esta pedisse. Isso deveria se manter até o momento em que a criança dissesse: “Eu sei que vocês estão falando de mim”. Então havia uma mudança de comportamento e o problema era superado.
Haddad (s/d) menciona que personagens femininas redentoras como Sheherazade são extremamente repetitivas e cita os exemplos bíblicos de Ester. Conta a Bíblia que o rei Assuero era casado com a rainha Vasti, que um dia não atendeu à uma ordem do rei. Houve uma grande movimentação no reino, pois se tamanha desobediência chegasse aos ouvidos das outras mulheres, estas desrespeitariam os seus maridos. Segundo o autor a desobediência é considerada meio caminho para o adultério. O rei exige que 1000 virgens se apresentem a ele para que escolha outra rainha. Entre essas moças está Ester que, segundo Haddad seduz o rei e liberta as outras jovens. Outro exemplo bíblico é a história de Judite que com sua beleza e oratória para livrou o seu povo da opressão do rei Holofernes, matando-o.
Na história de Judite encontramos outro elemento semelhante a Sheherazade: o poder de sua oratória. Na religião mulçumana, um aspecto muito importante é o poder da palavra. A própria palavra “Alcorão” significa “palavra de Deus” e foi ao redor desta palavra que o mundo islâmico se organizou. Sheherazade e Judite conseguiram seus objetivos através da palavra e da astúcia. A história de Adão e Eva também é marcada pelo poder de palavra da serpente e de Eva que convenceu o homem a cometer o pecado que condenou toda a humanidade.

Conclusão:
Tanto nas Mil e Uma Noites como em Calila e Dimna existe um forte valor pedagógico. Na primeira obra, o filósofo Báidaba educa o déspota sanguinário, Dabshalim, e seu trabalho é tão bem visto pelo rei que cede seu trono ao sábio, em símbolo ao apreço por aquelas palavras. Sheherazade passa 1001 noites contando histórias para sua irmã Dunizarde que é uma criança; e para um rei que segundo Araújo (s/d) era quase um bárbaro por matar mulheres da maneira como o fazia. É interessante notar que o alvo da doutrinação por essas palavras não são só as crianças. Ariès (1978) ressalta que no século XIII contos de fadas eram também destinados a adultos (pp. 119), e encontravam nas mulheres um público fiel. Tanto o rei Shahriár como o rei Dabshalim tiveram que aprender a cultura islâmica para se tornarem governantes mais sábios.
A educação fornecida aos reis ia além do objetivo de evitar que eles deixassem de ser bárbaros, mas que se tornassem governantes que administrasse seus reinos através das leis do Islã. O mesmo se passou com Antígona que enfrentou Creonte para que este adotasse uma ética como governante: “A tua lei não é a lei dos deuses; apenas um capricho ocasional de um homem. Não acredito que tua proclamação tenha tal força que possa substituir as leis não escritas dos costumes e os estatutos dos deuses. Porque essas não são as leis de hoje, nem de ontem, mas de todos os tempos: ninguém sabe quando apareceram (...)” (Sófocles, 1977, pp. 22 apud Araújo, s/d).
Sheherazade transformou o espaço íntimo do casal, num espaço onde o lúdico era permitido através de suas narrativas, que possibilitavam outro tipo de prazer. Esse espaço íntimo era usado para educar a irmã e o marido, até certo ponto, transmitindo-lhes os valores e tradições da cultura mulçumana. O fato de Sheherazade educar seu marido a coloca numa posição daquela primeira mulher que tem como tarefa educar as crianças: a mãe. Desta forma, a princesa assumiria dois papéis, o de esposa, que proporciona um prazer sexual e o de mãe que proporciona a entrada do indivíduo na cultura, na civilização. E se pensarmos desta maneira, manter a sua palavra e assassinar Sheherazade aproximaria Shahriár do matricídio que é condenado não só pela charia, mas por qualquer código jurídico.
As duas obras apontam para um aspecto muito importante para a religião mulçumana: o valor da palavra. No fim da tradução de Galland (Araújo, s/d), Shahriár diz que Sheherazade deverá ser olhada como aquela que libertou todas as jovens que deveriam ser imoladas. Mandou ainda que suas histórias fossem escritas em 30 volumes com letras de ouro e guardadas como tesouro real e que deveriam ser transmitidas ao povo e às crianças, para educá-las, assim como ocorreu com ele. O fato das histórias serem escritas com “letras de ouro” e guardadas como um “tesouro real” nos dá a dimensão da importância de seu conteúdo para o povo árabe.
A grande difusão das histórias de Sheherazade e dos dois chacais nos levam a pensar na existência de uma natureza humana, que apesar da época e da cultura possuem questões semelhantes a ponto de obras literárias como estas terem tantas adaptações e chegarem às crianças até os dias de hoje.

Bibliografia:
  • Al-Mukafa, Ibn (s/d) Calila e Dimna (tradução de Mansour Challita). Distribuidora Record. Rio de Janeiro.
  • Alves, Helena Kimie Takara (2007) O conto de Fadas e as Fadas como Inspiração Artítica. Trabalho de conclusão de curso para a obtenção do grau de Bacharelado em Artes Plásticas da UNESP. São Paulo. http://www.ia.unesp.br/area_aluno/%20visuais/tcc_2007/helena_kimie.pdf.
  • Áries, Philippe (1978) História Social da Criança e da Família. Zahar: Rio de Janeiro.
  • Fujikura, Ana Lúcia Carvalho (s/d) Os Provérbios no Libro de Calila e Dimna. www.hottopos.com/collat4/os_proverbios_no_libro_de_calila.htm.
  • Haddad, Jamil Almansur (s/d) Interpretações das Mil e Uma Noites. http://www/. hottopos.com/collat6/jamyl.htm
  • Jarouche, Mamede Mustafa (trad.) (2005) Livro das Mil e Uma Noites. Volume I – ramo sírio. Ed. Globo São Paulo.
  • Safra, G. (1984) Metodo de consulta terapeutica atraves do uso de estorias infantis Tese de Mestrado apresentada ao IPUSP

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segunda-feira, 16 de junho de 2008

SEMINÁRIO: LEWIS CARROLL

O Racionalismo e o Nonsense em Alice no País das Maravilhas

Por Gabriela Désirée Degen Marothy

Nascido Charles Lutwige Dodgson em 27 de janeiro de 1832, filho de um pastor anglicano, era o terceiro de onze irmãos. Teve uma infância feliz, porém moldada na rígida moralidade vitoriana, nos vilarejos de Daresbury e depois Croft-on-Tees onde seu pai atuou como pastor. Começou a ser educado em casa pelo Rev. Dodgson, que o iniciou em francês, letras clássicas, estudos eclesiásticos e matemática. Aos 13 anos é mandado para o internato Richmond, afim de aprimorar sua educação. Dois anos depois é enviado para Rugby School, considerado o melhor internato inglês da época, com o intuito de se preparar para ingressar em Oxford e, como o pai, estudar matemática e lógica. No século XIX os internatos para meninos eram locais de verdadeira anarquia, onde os alunos mais novos eram freqüentemente submetidos a rituais de deboche e tortura psicológica pelos mais velhos (os chamados “ritos de iniciação”), sem qualquer interferência dos professores. Apesar de nunca ter se queixado disso nas cartas para casa, é muito provável que Carroll tenha passado por esse tipo de humilhação.
Sempre foi uma criança sensível e desde cedo já demonstrava pendores artísticos, como nesse limerick (poema de cinco versos rimados com conteúdo humorístico) que compôs para seus irmãos:

His sister named Lucy O’Finner
Grew constantly thinner and thinner,
The reason was plain,
She slept out in the rain,
And was never allowed any dinner.
[1]

Em 1850 Charles ingressa em Christ Church, Oxford, onde se graduou com honras em matemática no final de 1854. Já no início de 1855, aos 23 anos ele retorna à faculdade como sub-bibliotecário, recebendo no mesmo ano o cargo de professor que exerceria até 1881. Nessa mesma época é apresentado por seu tio Skeffington Lutwidge à fotografia, hobby que exerceria por muitos anos, e que seria, posteriormente, seu principal meio de se aproximar de crianças. Chegou a tal ponto de virtuosismo com a câmera fotografia que foi considerado o melhor fotógrafo de sua época.
No início de 1856 falece o antigo reitor de Christ Church, Thomas Gainsford, que é prontamente substituído por Henry George Liddell, eminente estudioso de grego da época. Nesse mesmo ano Charles trava contato com os filhos mais velhos do reitor, Harry e Lorina, que considera “crianças encantadoras”.
Em 1857 ele já se aproximara de todas as crianças Liddell, especialmente suas “três jovens amigas prediletas”: Lorina, Alice e Edith, a quem ele constantemente fotografa e leva para passeios e piqueniques.
Ao mesmo tempo ele contribui constantemente com poemas adultos para várias publicações populares, dando vazão a seus dotes artísticos. Data deste período a invenção do pseudônimo “Lewis Carroll”, uma latinização e inversão de seu nome, Charles Lutwigde.
Devido à perda de seus diários, têm-se poucas informações sobre sua vida durante os anos de 1858-62. Especula-se que, na verdade, eles tenham sido destruídos por familiares de Charles após sua morte, por conterem informações comprometedoras à sua memória. A maioria dos dados que se tem desse período foram, extraídos de cartas, não só de Carroll, mas também de seus amigos e familiares.
No entanto este foi seu período criativo mais fértil, coincidindo com sua amizade com as meninas Liddell e culminando com a criação dos livros de “Alice”. Durante este período, o relacionamento de Carroll com elas só floresceu e visitas, excursões ao campo e cartas engraçadas eram comuns.
Carroll sempre sustentou que seu relacionamento com crianças era puro e inocente. Embasava esse interesse na visão de poetas do Romantismo Inglês, como Blake e Wordsworth (leituras fundamentais na formação do jovem Charles), os quais glorificavam a infância como o período no qual o espírito, recém saído das mãos de Deus, ainda não tinha sido maculado pelo pecado. Essa visão contrastava fortemente com a vigente na época, na qual toda criança já nasce impura e é dever de seus pais, educadores e da igreja “corrigi-la”.
No entanto não é difícil acreditar que pelo menos subconscientemente Charles fosse assombrado por uma preferência sexual imprópria (no caso meninas impúberes) e, devido à sua formação moral rigorosa, se culpasse e repreendesse por isso. De fato durante a década de 1860-70, seu período mais fértil como escritor e mais frutífero em termos de amizades infantis, seus diários são continuamente bombardeados por súplicas de perdão e promessas de levar uma vida melhor, como se pode notar nesse extrato de 31 de dezembro de 1863:

“Aqui, no encerrar de mais um ano, quanta indiferença, quanto descuido e pecado sou obrigado a relembrar! Ó Deus... levai-me vil e imprestável que sou... Ajudai-me a ser Vosso servo...”[2]
Ou nessa entrada de 6 de marco de 1864:

“Ó Deus... Ajudai-me a viver para o Senhor. Ajudai-me... a lembrar que a hora da morte se aproxima.Pois sou tão fraco, vil e egoísta... Libertai-me das correntes do pecado”[3]
Ao mesmo tempo seu opus literário do período, tanto poemas quanto artigos religiosos abraça a noção de pecado e redenção sustentando que sempre é possível limpar a alma do pecado, alcançando a salvação, se o pecador assim o desejar. Novamente esse é um pensamento que opõe-se ao que vigorava na época: a igreja anglicana do período pregava a danação eterna, sem possibilidade de redenção para aqueles que sucumbiam ao pecado. Ora, Charles era um modelo de retidão moral, como testemunham muitos de seus amigos e familiares; chegando mesmo a se ordenar diácono (um cargo eclesiástico anglicano abaixo do de pastor) em 1861. Externamente, nada em sua pessoa indicava algum tipo de tormento interior, ao contrário ele sempre foi descrito como alguém muito seguro de suas idéias e de sua fé.
Fica a pergunta: seria Carroll de fato aterrorizado por um desejo que ele nunca poderia satisfazer? Ou era de fato apenas vítima de sua forte auto-exigência? A reposta nunca será conhecida: é impossível taxar uma ou outra como sendo verdadeira se não temos os dados necessários para comprová-la (como já foi dito as partes do diário de Carroll que poderiam prover indicações nesse sentido foram perdidas).
Se por um lado nossa visão moderna tende a pender para a questão da sexualidade, especialmente porque já podemos enxergá-la sob uma ótica psicanalítica, que só foi desenvolvida anos depois da morte de Carroll; por outro não há nenhum
indício de que sua conduta tenha sido de algum modo imprópria. De fato nenhuma de suas jovens amigas se lembra dele sendo algo que não extremamente afetuoso e cordial: um verdadeiro amigo.
Seja como for, a conjectura mais aceita atualmente é de que essa possível confusão interior, aliada ao seu extraordinário dom literário e talento para a matemática que o levaram a escrever “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas” e posteriormente “Através do Espelho, e o que Alice encontrou Lá”. Durante uma tarde de verão de 1862 Charles junto com seu amigo e também professor Robinson Duckworth levaram as três meninas Liddell, então com 13, 10 e 8 anos para um piquenique e excursão de barco pelo rio que circunda Oxford. Enquanto remava rio acima Charles recebe o pedido das Liddell para que lhes conte uma história (algo que ele já tinha feito inúmeras vezes antes). Ele então começa a relatar um conto que depois se transformaria em “Alice”, mas que momentaneamente ele chamou de “As Aventuras de Alice sob a Terra”. Apesar de já ter-lhes inventado histórias varias vezes, esta deve ter sido realmente especial, pois Alice pediu que Carroll a escrevesse para ela. Ele de fato a escreveu, mas no momento em que a presenteou com um manuscrito encadernado no seu aniversario de 12 anos, em 1864, seu relacionamento com as meninas já era bem diferente.
Novamente não se sabe o que ocorreu, pois as páginas referentes a esse assunto foram cortadas do diário de Charles, mas em meados de julho de 1863 Carroll e os Liddell terminaram seu relacionamento. Especula-se que o rompimento tenha partido da mãe de Alice, também chamada Lorina, que supostamente percebeu em Carroll um interesse impróprio por sua segunda filha. Depois desse evento Charles só volta a encontrar as meninas em cerimônias formais de Christ Church e outros eventos acadêmicos, mantendo com elas uma cordialidade distante. Elas praticamente deixam de ser mencionadas em seu diário até o inicio da década de 1870 quando a sra. Liddell leva Lorina e Alice, já moças de vinte anos, para serem fotografadas por Charles. Carroll manteve relacionamentos com meninas durante toda sua vida, mas o fantasma de Alice nunca deixou de assombrá-lo.
Apesar de não mais se relacionarem, Carroll e os Liddell ainda possuíam muitos amigos em comum, que após verem o manuscrito de “As Aventuras de Alice sob a Terra” na casa dos Liddell, sugeriram entusiasticamente que Carroll o publicasse. Então, após revisar e ampliar o texto original, que foi rebatizado como “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas”, Carroll publica sua fábula nonsense em 1865.
O livro foi um sucesso imediato. Ao contrario das publicações infantis da época que visavam à educação moral e religiosa da criança e conseqüentemente traziam um tom sério, a obra de Carroll prima pelo humor e pela leveza do tema.
Seis anos depois, incentivado por seu editor e pelo estrondoso sucesso da obra, Charles publica uma continuação, chamada “Através do Espelho, e o que Alice Encontrou Lá”, desta vez tendo como tema o encontro da menina com as peças do jogo de xadrez e rememorando a visita do príncipe de Gales a Oxford alguns anos antes, e do qual ele e as três irmãs participaram ativamente.
Há muitas interpretações possíveis para os dois livros, muitas vezes contraditórias, levando em conta a rica vida interior de Carroll, seu relacionamento por vezes conflituoso com as crenças de sua época e com as meninas. Sabe-se que os livros de “Alice”, em particular “País das Maravilhas” formam uma obra que foi escrita visando agradar uma leitora em particular (Alice Liddell), e cujas referencias foram todas tiradas de lugares e pessoas que ambos conheciam. Há uma tendência a crer que, apesar de o exterior da heroína representar Alice Liddell ela foi imbuída da psique do próprio Charles Dodgson. Sob esta luz, a batalha que ela trava por todo o livro, visando sua sobrevivência num mundo hostil no qual tem se valer apenas dos próprios recursos, podem ser considerados metáforas da própria luta travada por Carroll não só para controlar seus demônios, mas também para ser aceito numa sociedade com a qual vivia em constante conflito, tanto por suas crenças quanto pela sensação de outsider que experimentou durante toda a vida: sua incrível timidez (que magicamente sumia se ele se encontrasse na companhia de uma linda menina) e a gagueira congênita da qual nunca consegui se curar o mantiveram sempre à margem da sociedade.
Alguns também vêem em “Alice” uma crítica ao tratamento dispensado à criança na era Vitoriana: não só a visão deturpada que os vitorianos tinham da criança, como um ser já maculado pelo pecado e principalmente pouco dotado de inteligência e capacidade de compreensão, como também a comum negligencia dos pais no tratamento dos filhos, na maioria das vezes relegados a cômodos específicos na casa e ao cuidado de babás e enfermeiras.
Independentemente disso fica clara a influencia da vida de Lewis Carroll, tanto daquela que pode ser mensurada e compreendida como daquela sobre a qual se pode somente especular na criação dos livros que, mais de 100 anos após sua publicação continuam sendo admirados em todo o mundo.

Bibliografia:
  • COHEN, Morton N. Lewis Carroll, uma Biografia. Tradução Raffaella de Filippis. Ed. Record, Rio de Janeiro, 1998.
  • CARROLL, Lewis e GARDNER, Martin. The Annotated Alice. Penguin Press, Londres. 2001.

Sites:
http://lewiscarrollsociety.org.uk/ - Web site da Sociedade Lewis Carroll, dedicada à promoção da vida e obra de Charles L. Dodgson.


[1] Sua irmã de nome Lucy Serafina/ Ia ficando cada vez mais fina/ Porque dormia sem lençol/ Debaixo de chuva ou sol/ E porque nunca lhe davam vitaminas. Trad. José Paulo Paes
[2] COHEN, Morton N. Lewis Carroll, uma Biografia. Tradução Raffaella de Filippis. Ed. Record, Rio de Janeiro, 1998. p. 242.
[3] Idem

VÍDEO: DOM QUIXOTE DE LUGAR NENHUM

video

SEMINÁRIO: TATIANA BELINK E LÉO CUNHA

SÉTIMA MESA REDONDA: 12/06. Tatiana Belink: Di-versos russos, Limeriques; Léo Cunha: Cantigamente, Claves de lua e XXII!!, 22 brincadeiras de linhas e letras.

Mediadoras: Lucília Simões, Maria do Socorro Monteiro Rolim e Alessandra Mirna Vitório.


Tatiana fez, junto de Júlio Gouveia a primeira adaptação “para a TV de “O Sítio do pica-pau amarelo”, de Monteiro Lobato. Faz versões em português de “limericks”, modelos de poemas públicados em língua inglesa com conteúdo humorístico e considerados incultos. Vejamos aqui um trecho de uma das suas obra que ilustra bem o modelo de poesia que segue a autora:

Você asbe o que é
Cocanha?
Cocanha é uma terra
estranha,
País que se esconde
Ninguém sabe onde –
Lugar misterioso, a
Cocanha

O poema introduz ao leitor nuances da cultura européia ao tratar de uma lenda surgida no período medieval, quando se passava muita fome, sobre uma terra onde havia total abundância, fartura e tranquilidade.
Sua obra também possui fundo moralizante, como o que ocorre na maioria das obras consideradas infantis:

“Vida sem ação
Nem preocupação
Boa vida (pra vagabundo)...”


Seus poemas tratam, em geral, de temas muito relacionados ao universo infantil, desde aquilo que pode ser divertido à criança até a questão da gramática e da escrita, como a pontuação ortográfica. Todas as abordagens são lúdicas e transformam até assuntos chatos em diversão, além de fornecerem ao leitor diversas informações considerávelmente importantes na educação. Trata também de temas difíceis de se lidar, principalmente junto a crianças, como sentimentos relacionados à solidão, ao desprezo, a indecisão.

Léo Cunha, jornalista, cronista, crítico literário, contista e poeta tem cerca de 40 publicações literárias. Filho de proprietária de livraria especializada em literatura infanto-juvenil, lia muitos livros e os recomendava aos clientes da loja, tendo tido, assim, grande contato desde muito novo com a arte da literatura.
Busca trabalhar, em seus livros, com aspectos de todo tipo de arte como a música, as artes plásticas, etc... Resultam desse trabalho poemas belíssimos, como O mendigo e a lua, que veremos abaixo:

Se for de comer é queijo.
Se for de correr é bola.
Se for de gostar é belo.
Se for de gastar é sola
Se não for, é toda lua,
Se não for, é toda sua.

Com livros carregados de simbologia visual e intertextualidade com outras obras da literatura infantil, Cunha abre espaço à imaginação do leitor mirim. Em XXII!!, 22 brincadeiras de linhas e letras “o autor convida o leitor à interação”, como observou Socorro ao apresentar a obra que lida com o universo tecnológico da informática.
O livro-CD Clave de lua trabalha com três elementos em conjunto: a poesia, a música e a imagem. As imagens e ilustrações ficam por conta do livro, em formato tradicional infantil, e a inovação está no disco com canções que acompanham os poemas da obra, que são cheios de trocadilhos, jogos de palavras, ludismo, fantasia e referencias a histórias clássicas da literatura infantil/juvenil. Mais uma vez, uma inovação trazida pelo autor ao universo da literatura infantil.
Como disse Alessandra, Léo Cunha consegue uma grande abrangência com sua obra, abordando universos amplos e criando, assim, uma certa universalidade com sua obra.

SEMINÁRIO: RICARDO AZEVEDO, LUÍS CAMARGO E BARTOLOMEU DE CAMPOS QUEIROZ

QUINTA MESA REDONDA: 08/05 – Ricardo Azevedo (Abre a boca e fecha os olhos, A casa do meu avô, Ninguém sabe o que é um poema); Luís Camargo (Era uma vez uma estrela, O catavento e o ventilador) e Bartolomeu de Campos Queiroz (O cavaleiro das sete luas)

Mediadores: Ana Maria dos Santos Latge, Josiane Camacho Laurentino e Vanessa Sayure Sawada.

Paulista, nascido em 1949, Ricardo Azevedo é estudioso da cultura popular, e por isso seus poemas são muito focados nesse ambiente. O poema acima pode bem ilustrar tal fato: através de uma linguagem bem coloquial e do jogo de palavras que lembra uma cantiga de rodas o poeta retrata um tema bastante familiar na poesia: uma história de amor.
Assim são os poemas desse talentoso autor, carregados de simplicidade, mas ao mesmo tempo repleto de beleza e sofisticação, visto que consegue através de trocadilhos divertidos (Ninguém sabe o que é um poema – poema que deu título ao livro) e de jogos com o tamanho das letras, com a diagramação de seus livros (Sei lá, poema onde a diminuição da fonte mostra que o amor tende ao infinito), construir poemas que encantam a qualquer tipo de leitor.
O talento do autor é tanto que ele consegue construir com poucas palavras textos simples e maravilhosos ao mesmo tempo, e o exemplo disso é Poema Mecânico, poesia criada através de um diagrama.
Ainda há todo um cuidado do autor no que se refere ao projeto gráfico de sua obra, assunto muito bem explorado pelas apresentadoras desta mesa redonda.

SEMINÁRIO: FERREIRA GULLAR, LÚCIA PIMENTEL GÓES E ZIRALDO

Quarta Mesa Redonda – 24/04: Ferreira Gullar (Um gato chamado Gatinho), Lúcia Pimentel Góes (Vira, Vira, Vira Lobisomem; Ponto por ponto, Costura Pronta) e Ziraldo (O menino mais bonito do mundo; Além do Rio)

Mediadores: Juliana Matheus Pires, Fabiana Ozai Motta, Marcos Fonseca e Elisa Hiromi Arakaki.

Nossa quarta mesa redonda trouxe mais três grandes e inovadores autores que nos privilegiam com suas belas obras literárias.
Sabe-se que a literatura infantil pré-lobatiana diferia muito da que encontramos hoje. Era mais, como diriam os debatedores, “quadradinhas” e bem menos atraentes. Atualmente a nova palavra de ordem da produção literária é “criatividade”, e isso é o que não falta nesses autores, como veremos.
Ferreira Gullar (pseudônimo de José Ribamar Ferreira) esteve envolvido em várias fases poéticas. Iniciou escrevendo poesia de vanguarda por volta de 1960 –70, escrevendo muitos poemas políticos. Mais adiante em sua carreira, apesar de não ser poeta infantil, decidiu escrever um livro voltado ao público jovem cujo título é o nome de seu animalzinho de estimação: “Um gato chamado Gatinho”. Uma obra encantadora, ilustrada por Ângela Lago, com a qual o poeta procura prender a atenção da criança através do bom humor e de várias expressões que lembram o universo infantil. As imagens são excepcionais, pois fascinam e a atraem a criança para esse divertido universo literário.
Do mesmo modo, Lúcia Pimentel Góes, professora livre docente aposentada da Universidade de São Paulo, trabalha com símbolos e metáforas que prendem a criança à leitura. Vira, Vira, Vira Lobisomem, por exemplo, possui um rico conteúdo simbólico a respeito da vida humana, pois a cada sete anos o menino protagonista se transforma em um animal totalmente ligado à fase da vida na qual se encontra: aos sete anos se transforma num gavião (relacionado talvez aos olhos atentos da ave, como a criança em sua fase de descobertas); aos catorze anos transforma-se num leão (rebeldia adolescente?); aos vinte e um se transforma em um zangão e descobre o amor, e assim sucessivamente, até se metamorfosear em uma borboleta e morrer (o peso dos anos o abandonou, deixando-o livre). Portanto, associar os animais à própria vida é um desafio à criança, mexendo, logicamente, com sua capacidade de raciocinar.
O livro Ponto por Ponto, Costura Pronta traz outra novidade: através da brincadeira popularmente conhecida por lengalenga, a autora joga com as palavras, usando a repetição como estímulo à imaginação e à memorização.
Ziraldo, por sua vez, publicou seu primeiro desenho na Folha de Minas aos seis anos de idade e a partir de 1979 dedicou-se exclusivamente ao público infantil. O Menino mais bonito do mundo, lançado em 1983, foi ilustrado por uma criança de nove anos, que retratou a fase infantil do personagem, e pelo artista plástico Sami Mattar, responsável pelas ilustrações correspondentes à fase adulta do protagonista, o que fez com que dois pontos de vista se intercalassem: o infantil e o adulto.
Seu outro livro Além do Rio, que descreve o Rio Amazonas a partir do olhar de um extraterrestre, apresenta também uma relação entre imagem e palavra muito forte e significativa, pois a união de ambos é fundamental para a compreensão da história.
Assim, pode-se concluir que a imagem nas histórias infantis é, quando não indispensável, ao menos parte essencial para a compreensão e atração do pequeno público.

SEMINÁRIO: SÉRGIO CAPARELLI

Terceira Mesa Redonda – 17/04: Sérgio Caparelli (Poesia Visual, O velho que trazia a noite, Boi da cara preta)

Mediadores: Juliana Pádua e Danilo Fallopa


O primeiro livro infantil do autor foi publicado em 1978 com o título de Os Meninos da Praia, traziendo poemas carregados de beleza, movimento e plasticidade. Assim são os poemas visuais de Caparelli: sua forma cria uma movimentação que mexe com a imaginação do leitor, seja ele criança ou não. É como um jogo onde palavra e objeto se tocam, caminham lado a lado desconstruindo aquilo que nossos sentidos reconhecem como real, dando margens a novos sentidos e interpretações.
O poeta mexe e remexe cuidadosamente com o sistema verbal numa tentativa de “resgate da dimensão semiótica da linguagem”, como diz a professora de Literatura Infantil da Universidade de São Paulo, Maria Zilda da Cunha, “trabalhando incansavelmente até atingir o nível encantadoramente lúdico, com o qual o leitor é capaz de interagir”.
Aliás, o leitor tem uma importância muito grande na obra de Caparelli, e quem acessa o site do poeta pode comprovar esse fato. O http://www.caparelli.com.br/ é totalmente interativo e a participação do leitor é crucial, pois, mais do que participar, ele ajuda também a criar. As crianças aprendem a fazer e a gostar de poesia brincando. Nesse mundo mágico e lúdico todo mundo é capaz de ser poeta, além, claro, de admirar as grandes inovações de Sérgio Caparelli. Depois de criar um pouco de poesia, o leitor poderá se divertir com inúmeros contos chineses, escritos pelo autor no período em que esteve na China.
Enfim, o site inova, pois atrai não apenas aqueles que adoram uma boa leitura, como também as crianças que não gostam de ler, já que a internet atualmente seduz muito mais do que qualquer outra coisa. É a literatura acompanhando a modernidade e mostrando toda sua beleza.

SEMINÁRIO: SIDÔNIO MURALHA

Segunda Mesa Redonda – 10/04: Sidônio Muralha (A televisão da bicharada, Uma letra puxa outra, Histórias para brincar)

Mediadora: Daniela Ortega

Como é possível observar, algumas semelhanças são encontradas nos dois poemas acima, utilizados como base da discussão dessa mesa, a começar pelo público alvo a que se destinam. Diferentemente dos poemas da mesa anterior, esses são destinados a crianças menores (entre oito e dez anos). Outra semelhança observável é o jogo de palavras e as brincadeiras com os animais utilizados pelos poetas como ferramenta para atrair as crianças.
Sidônio Muralha só começou a escrever para crianças um bom tempo após o início de sua carreira, pois, como filho de socialista que era, escrevia somente poemas politicamente engajados. Seu primeiro livro destinado ao público infantil foi Bichos, bichinhos e bixarotos, composto por poemas que carregam uma certa carga moral. Com essa preocupação do autor, que continuou em seus poemas vindouros, mais do que simplesmente entreter e divertir os pequenos, o que Sidônio faz é trabalhar com a imaginação e o raciocínio das crianças, além de discutir tópicos extremamente importantes, tais como a questão da miscigenação (poema Xadrez), questões sociais diversas e também a questão ecológica, bastante presente na obra do poeta.
Desse modo Sidônio consegue, de uma maneira bastante lúdica, divertida e através de uma linguagem simples (afinal, como diz Daniela “ considerar o público para quem se escreve é muito importante”), mostrar às crianças os problemas sérios da sociedade na qual ela se encontra, desenvolvendo assim uma consciência crítica que a acompanhará por toda a vida.

SEMINÁRIO: CECÍLIA MEIRELES E MÁRIO QUINTANA

Primeira Mesa Redonda – 03/04: Cecília Meireles (Ou Isto ou Aquilo, Cânticos) e Mário Quintana (Sapato Furado, Nariz de Vidro)

Mediadoras: Beatriz Pistinizi e Daniella Bonança

O curso de Literatura Infantil e Juvenil: Linguagens do Imaginário III, oferecido pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo conta, em seu programa, com a realização de diversas mesas-redondas nas quais se propõe a apresentação de obras poéticas direcionadas ao público infantil e a discussão sobre os diversos aspectos nelas encontrados.

A primeira mesa redonda, apresentada no dia 03 de abril, abriu caminho para uma fervorosa discussão a respeito da literatura infantil produzida por Cecília Meireles e Mário Quintana: até que ponto uma poesia pode ou não ser dirigida para o público infanto-juvenil? A proposta lançada pelas mediadoras a respeito desse tópico no debate mostrou a dificuldade encontrada para se chegar a um consenso a respeito do assunto:

“Poderá surpreender o leitor adulto o fato desse poema estar incluído em livro com destinatário mirim. É exatamente essa possibilidade de o texto transitar da dúvida cotidiana à dúvida existencial que revela o respeito à inteligência infantil. Adultos e crianças estão continuamente tomando decisões, e delas, muitas vezes, decorre mudança radical em seu destino. Por outro lado, a visão apresentada aponta para a totalidade? Afinal, por quê escolher?”

Beatriz Pistinizi e Daniella Bonança, expositoras e mediadoras do debate, propuseram uma análise contrastiva de dois dos poemas dos autores: O Adolescente, de Mário Quintana, e Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles. Enquanto o primeiro poema, apresentando características modernistas pela forma e sonoridade livres, tratava da questão do amadurecimento da criança e do jovem e do medo que ele tem ao se deparar com a necessidade de exploração de novos horizontes, o segundo, apresentando uma forma regular e diversas rimas, tem como tema a escolha, as concessões e as conseqüências a que nos submetemos ao efetuá-la. Todo o jogo de palavras do poema de Cecília e seu encadeamento lógico, bem como as ricas imagens do poema de Quintana, demonstram uma valorização da capacidade de raciocínio dos leitores a que as obras são dirigidas.

As dificuldades começaram já na primeira questão: os livros selecionados foram publicados em 1964, e isso chamou a atenção dos debatedores, abrindo caminhos para uma discussão sobre até que ponto o contexto histórico importa ou influencia numa obra. O primeiro a questionar tal fato foi Eduardo Barchiesi:

“Acho que estamos supervalorizando essa questão de contexto histórico, afinal essa é uma visão nossa, atual, não da época!”

Afinal, teria ou não importância o contexto no qual a obra se insere no que diz respeito à literatura infantil?
Evidentemente não existe uma resposta concreta e exata para tal questão.O que se pode analisar aqui é o poder de influência que essas obras têm sobre o publico infantil, pois é certo que os poemas analisados são escritos visando o público mirim, mas esse não é visto mais como um “adulto em miniatura”. Aqui a inteligência da criança é levada muito em consideração, inclusive seu poder de escolha diante da vida.
Cecília propõe escolhas do tipo: brincar ou estudar? Guardar o dinheiro ou comprar um doce? Subir aos ares ou permanecer no chão? Afinal,

“É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo m dois lugares”.

(Ou isto ou aquilo, Cecília Meireles)

Desse modo, o recado que a autora parece querer passar às crianças e aos jovens é que eles têm o poder de escolher o que desejam fazer, é como se dissesse: “ Jovem decida o que fazer, escolha seu próprio caminho e siga por ele”. O jogo entre os termos “ou...ou” (como se fosse um jogo de pular cordas) parece remeter perfeitamente à esse fato.
Mas há ainda uma outra possibilidade, e quem levantou tal hipótese foi Daniela Ortega:

“Cecília talvez queira dizer à criança que ela não precisa se ater ao que é melhor o tempo todo, pois não necessariamente existem coisas melhores que as outras”.

Já poema de Mário de Andrade não deixa margem para tal hipótese, ao contrário, ele deixa claro no poema em questão que a escolha realmente é de cada um. Mário parece dizer ao seu público: “faça escolhas ‘vestido apenas com o teu desejo’”.

domingo, 15 de junho de 2008

SLIDES: BELA ADORMECIDA




SEMINÁRIO: GRIMM E PERRAULT

Irmãos Grimm e Perrault

Monise F. Picanco

IRMÃOS GRIMM

Seu Contexto, sua Obra:
Este trabalho visa caracterizar o contexto histórico e ideológico da obra de Jacob e Wilhelm Grimm, buscando encontrar explicações para as mudanças feitas pelos Irmãos nos contos europeus por eles registrados e transformados em literatura infantil. Além disso, a explanação destas mudanças será feita a partir de uma comparação das versões do conto “A bela adormecida (no bosque)” de Charles Perrault e dos Irmãos Grimm. Dito isso, passemos a biografia dos Grimm.

Biografia:
Ao contrário do que muitos pensam os Irmãos Grimm não são gêmeos. São filhos de um jurista, nascidos em Hanau, Hessen; sendo que Jacob Ludwig Karl Grimm nasceu em quatro de Janeiro de 1785, enquanto Wilhelm Karl Grimm nasceu em 24 de fevereiro de 1786. Podem não ser gêmeos, mas tiveram suas vidas bastante interligadas e semelhantes. Segundo Sérgio e Giulle da Mata, “De fato, em muitos aspectos suas trajetórias são idênticas, sobretudo no que se refere às escolhas profissionais e intelectuais. Não há duvida de que nos encontramos diante de ‘vidas paralelas’” (DA MATA e DA MATA, p. 7).
Ambos se decidem pelo estudo de Direito, e tem em Savigny um grande ponto de referência intelectual e científica. Ambos tiveram passagem pela Biblioteca de Kassel para depois se tornarem professores na Universidade de Göttingen. Talvez a diferença mais significativa na biografia dos autores tenha sido Wilhelm sofrer durante toda a sua vida de uma saúde debilitada e por este ter, diferentemente do irmão, casado.

As obras mais significativas dos Irmãos Grimm são:
  • 1812: Contos para a infância e doméstico (que sofreu várias edições até 1822).
  • 1819: Primeiro volume da Gramática do Alemão.
  • 1828: Antiguidades jurídicas Alemãs (claramente influenciado por Savigny)
  • 1835: Mitologia Alemã
  • 1848: História da língua alemã.

As influências e a relação com as fontes:
Por mais que se encontre em ambos as mesmas influências, por mais que os irmãos tivessem em si a confluência entre a tradição romântica e historicista alemã, há diferenças quanto às contribuições para a obra literária dos irmãos.
Jacob Grimm é o maior responsável pela influência historicista, dado que é nele que Savigny tem sua maior influência. Savigny é o fundador da Escola histórica do Direito, e, trazendo o historicismo para a ótica jurídica. A base do pensamento de Savigny é Herder, para quem existem diferenças radicais de pensamento nos diferentes períodos históricos. Assim, os conceitos, crenças, sensações mudam profundamente de um período para o outro; o que nos leva a que cada período deve ser único. A busca aqui é pelo “espírito do povo”, a unidade e especificada de cada povo em cada época. O excerto seguinte, parte do estudo de Riche, caracteriza muito bem o Historicismo, assim como a Escola criada por Savigny:
“O historicismo marca o pensamento alemão durante o fim do século XVIII e início do século XIX, configurando, no campo filosófico-jurídico, a denominada escola histórica do Direito, representada magistralmente por Savigny. O contexto em que ocorre seu advento é caracterizado pela grande simpatia com que contava o romantismo na época, inspirando a valorização da tradição, do sentimento e da sensibilidade, em lugar da razão, que não é capaz de tudo gerar. Valoriza, pois, as manifestações espontâneas, devido à individualidade e variedade do próprio homem, demonstrando ao mesmo tempo um enorme amor ao passado, que não apenas explica o presente, mas também gera motivações para o futuro. Dessa forma, a história possuiria um sentido irracional, de modo que não é possível compartilhar do otimismo iluminista, que vê na razão uma força propulsora e transformadora do mundo, capaz de sanar todos os males da humanidade. O Direito aqui é visto não como mero produto racional, mas antes um produto histórico e espontâneo peculiar a cada povo.” (RICHE, p. 1)

Jacob, que fora assistente de Savigny, ao utilizar os contos populares para serem confrontados com o saber filológico e histórico, foi responsável por trazer “para o campo da história da cultura uma contribuição de primeira ordem, ao reconhecer em ‘formas simples’ populares um manancial de pesquisa tão importante quanto à tradição literária da Antiguidade greco-romana” (DA MATA e DA MATA, p. 6), manancial este que possibilitava, na visão do autor, chegar aos fundamentos da identidade germânica.
É o historicismo que marca a relação de Jacob com as fontes. As fontes dos irmãos são, sobretudo, os contos, a literatura popular. Buscaram nestes textos do folclore literário germânico tanto os elementos lingüísticos para fundamentação dos estudos filológicos da língua alemã; quanto à expressão autêntica do espírito da raça germânica. “É na poesia alemã antiga, nas antigas sagas normandas como a ‘Canção dos Nibelungos’ ou o ‘Edda’, que se deve buscar o que há de fundamental na identidade germânica” (DA MATA e DA MATA, p.5). Mas suas fontes foram para além desta poesia. Tiveram contato com a obra de Basile, o Pentamerón, que também haviam sido a fonte de Perrault, no séc. XVII, na França.
Se Jacob é o maior responsável pela influência historicista, Wilhelm é responsável pela influência do Romantismo na obra. O contato deste autor com o Romantismo alemão deu-se cedo, já que sabemos que em 1809 ele desfruta da amizade de Achim Von Arnim. Assim, o romantismo alemão é parte do contexto dos jovens Irmãos Grimm. Ele foi o primeiro movimento do Romantismo, nascido de uma rebelião estética contra a França e sua Idade das Luzes. Deram-se as costas às idéias racionalistas surgidas na França do séc. XVIII, em uma Alemanha ainda não unificada e sob o domínio administrativo de Napoleão Bonaparte até 1814. A lenta insatisfação com o governo e o ideário francês fez-se sentir com o surgimento do movimento romântico. O retorno às tradições ‘nacionais’ e a ‘descoberta do povo’ entram em voga. Arnim é exemplo desta primeira geração de românticos que busca com entusiasmo o estudo da Idade Média Alemã, suas sagas, canções e contos populares e manifesta certa nostalgia em relação à idéia do Reich. É assim que nasce o movimento em rebelião com a razão, inspirado na Idade média e em tudo aquilo que possa ser considerado único aquele povo, cheio de humanismo, e com a exaltação das paixões.
Tal influência na obra é perceptível pela forma definitiva que Wilhelm Grimm dera para a coletânea de contos populares mais conhecida do mundo, a obra de 1812: Contos para a infância e doméstico. Fora Wilhelm que fizera as alterações de ordem estilística e de conteúdo nos contos, de modo que estes se adaptassem melhor aos conceitos humanistas do Romantismo, deixando para trás a violência anteriormente inserida nos mesmos. “Os contos populares foram não apenas traduzidos dos diferentes dialetos para o ‘alto alemão’. Eles passaram também por um processo de depuração moral” (DA MATA e DA MATA, p. 7).
As estórias da tradição oral não eram destinadas para as crianças, mas sim aos adultos. Fora esta adaptação moral, iluminada pelo Romantismo, que fizera possível a transição. O trecho de Oliveira fala muito bem quais são as mudanças significativas, assim como as principais características provindas do romantismo:
“O Romantismo trouxe ao mundo um sentido mais humanitário. Assim, a violência (presente nos Contos de Perrault) cede lugar a um humanismo, onde se destaca o sentido do maravilhoso da vida. Perpassam pelas histórias, de forma suave, duas temáticas em especial: a solidariedade e o amor ao próximo. A despeito dos aspectos negativos que continuam presentes nessas estórias, o que predomina, sempre, é a esperança e a confiança na vida”.(OLIVEIRA, p.1)

Por fim, vale dizer que é nesta mudança de moral que surge a desavença com Von Arnim, romancista alemão cuja influência em Wilhelm nesta depuração moral foi grandiosa. Este atrito sofrido mostra o conflito entre o que originou a obra e as modificações sofridas, o conflito entre o historicismo mais eminente em Jacob e o Romantismo mais encarnado em Wilhelm. Em uma carta de Jacob endereçada a Wilhelm, este faz o seguinte comentário quanto a Arnim e Bretano[1]: “não lhes interessa em nada a investigação histórica meticulosa, de todo modo que não se contentam em deixar o antigo como está, mas tentam adapta-lo ao nosso próprio tempo” (GOOCH, G. P. apud DA MATA e DA MATA, p.8).


PERRAULT

Charles Perrault e seu contexto:
Charles Perrault (1628-1703) é filho de seu tempo. Este advogado viveu no século XVII, na época do absolutismo e do classicismo, e do Rei Sol. Nesta época, segundo Góes, surge uma preocupação muito grande com uma literatura infantil e juvenil. São contemporâneos de Perrault, Condessa Murat e Mme. D’Aulnoy.
Como já foi dito anteriormente, Perrault compôs suas narrativas com argumentos tirados da ficção popular, dividindo com os Irmãos Grimm sua fonte: Basile, e seus contos do Pentamerón. “Perrault recolhe o folclore, a tradição e transforma-os em verdadeiras obras de arte” (GÓES, p. 78).
As idéias pedagógicas de Perrault são de acordo com a sua época. “Para Perrault, a principal característica do livro para crianças era, evidentemente, a moralidade de inspiração cristã, mas apresentada disfarcadamente” (GÓES, p. 77). Sua moralidade não é pedante, nem pesada, é diluída no conteúdo; assim como o maravilhoso não é seu enfoque, a presença do mágico se tornou em sua obra, na verdade, bem modesta. O conto tinha sempre duas partes: Uma narrativa e, ao final, conceitos morais em forma de verso. “Essa perspectiva promove, desde a fase inicial, na chamada literatura infantil a existência de um teor pedagógico associado ao lúdico” (OLIVEIRA, p. 1).
Mas a perspectiva anterior não é a única, na verdade é a menos corrente. Há outras maneiras de ver a obra de Perrault, e que podem ser identificadas, por exemplo, em comparação com as adaptações dos irmãos Grimm. Nesta comparação é possível perceber que os valores cristãos ainda não estão de todo presentes na obra de Perrault. Sendo o francês anterior a Idade das Luzes, sua moral também não é de todo presente, e, se comparado a Jacob e Wilhelm, o espaço para o mágico, para o paganismo, para uma imagem de mulher menos santificada; enfim, para aquilo que não é condizente com os valores cristãos, é muito maior em sua obra do que na obra dos Grimm.
‘Os contos da Mamãe Ganso’ é sua obra mais conhecida. Nesta estão presentes: O Chapeuzinho Vermelho; O Barba Azul; O Gato de Botas; As Fadas; A Gata Borralheira; Henrique, O topetudo; O pequeno polegar; e, a obra que nos ajudará a ver como as diferentes perspectivas influenciam na mudanças dos contos, A Bela Adormecida (no bosque).
Na versão da Bela Adormecida no Bosque de Perrault: Os presentes e o número de fadas é distinto. Não só são sete fadas ao invés de treze fadas, como no conto dos Grimm, como na versão de Perrault, A Bela Adormecida no bosque se casa e tem dois filhos: Dia e Aurora. E esta não é sua única diferença. O príncipe demora a assumir para seus pais a mais bela de todas como sua mulher porque, na história de Perrault, a mãe do herói é uma ogra, que poderia vir a comer seus filhos, dado que a carne de crianças é uma iguaria para ogros. A Rainha só vem descobrir quando seu marido morre e seu filho, o príncipe, vem assumir o trono e traz sua família consigo. Enraivecida com a mentira, quando seu filho sai para a guerra, ela planeja comer não só Dia e Aurora, mas também A bela Adormecida. Seus planos só não se tornam realidade porque o Mordomo serve-lhe carne de bezerro e corça, enganando-a. Ao final do conto, a Rainha Ogra descobre a farsa, e planeja por em um caldeirão cheio de bichos peçonhentos A bela, seus filhos, o mordomo e seus familiares. Ela é impedida pelo príncipe, que chega no exato momento em que sua família seria colocada no caldeirão. Diante de tal situação, não podendo negar suas pretensões, a Rainha se joga no caldeirão.
Pois bem, o casamento e o drama vivido com a família do príncipe de Bela Adormecida são inexistentes na versão dos Grimm. Na versão de Jacob e Wilhelm, a princesa, quando encontra seu herói, é “feliz para sempre”. Tem-se aqui uma imagem da mulher pudica, insere-se uma esperança nos contos que antes não era colocada. O amor e o humanismo estão presentes da versão dos Irmãos. Aqui a violência é substituída pelo amor e pelo “felizes para sempre”.

Bibliografia:
OLIVEIRA, CRISTIANE MADANÊLO DE . Charles Perrault (1628-1703) e Irmãos Grimm: Jacob e Wilhelm (entre1785 e 1863) [online] Disponível na internet via URL: http://www.graudez.com.br/litinf/autores/
RICHE, Flávio Elias.Friedrich Karl von Savigny e a Escola Histórica do Direito. [online]. Disponível na internet via URL: http://www.geocities.com/flavioriche/Savigny.htm
DA MATA, G. V. e DA MATA, S. (2006) Os irmãos Grimm entre Romantismo, Historicismo e Folcloristica. Brasil, Fênix – Revista de História e Estudos Culturais, vol. 3, Ano III, no. 2. Disponível na internet via URL: http://www.revistafenix.pro.br
GRIMM, Jacob e Wilhelm. (2000) Contos de fadas. São Paulo, Ed. Iluminuras.
PERRAULT, C. (2007) Contos e fábulas. São Paulo, Ed. Iluminuras.
GÓES, L. P. (1984) Introdução à literatura Infantil e Juvenil. São Paulo, Ed. Pioneira.
[1] Autor romântico de grande ligação com Von Arnim.

SLIDES: JÚLIO VERNE