domingo, 15 de junho de 2008

SEMINÁRIO: JÚLIO VERNE

Conquistas Científicas e Imaginação Criadora de Júlio Verne em Finais do Século XIX


Sandra Isoldi
  • Os primórdios da literatura infantil e juvenil: Charles Perrault Jacob e Wilhelm Grimm;
  • Jules Gabriel Verne Allote (8/2/1828 – 24/3/1905), conhecido no Brasil como Júlio Verne: um representante do seu tempo, estudioso, escritor, precursor da ficção científica;


Conquistas científicas e a imaginação criadora de Júlio Verne:

  • As tribulações de um Chinês na China, 1879
    - Uso do vapor e da eletricidade como geradores de progresso
  • O Castelo dos Cárpatos, 1892
    - Prevê as modificações científicas que estavam por vir e seu impacto no cotidiano
  • Cinco Semanas em um Balão, 1863
    - Lança o gás hidrogênio como fonte combustível
  • Da Terra à Lua, 1865
    - Utiliza a idéia de um projétil para lançar o homem à Lua, bem como o uso do alumínio em foguetes espaciais
  • Robur, o Conquistador, 1886
    - Uso de pilhas e acumuladores como fonte de energia e a idéia de um aparelho mais pesado que o ar e que seria capaz de voar
  • O Senhor do Mundo, 1904
    - O hidroavião
  • Viagem ao Centro da Terra, 1864
    - A Terra oca e seu aquecimento interior
  • Vinte Mil Léguas Submarinas, 1870
    - O submarino e as novas pilhas de sódio; a energia térmica dos mares
  • A Ilha de Hélice, 1871
    - A cidade flutuante e auto-sustentável

Os livros de nossa infância são a base fundamental para entender tanto um escritor quanto um ser humano enquanto leitor. No passado, não havia livros para a juventude. Os contos de fada não poderiam ser considerados “livros” até o surgimento de Perrault na França e dos irmãos Grimm na Alemanha. Livros infantis eram os livros escolares, incluindo os de literatura grega e latina. Somente mais tarde surgiria uma literatura para a juventude em uma língua que era conhecida, então, como “vulgar”.
A sociedade francesa do século XVIII não considerava sua literatura adequada para crianças, já que não era clara o bastante sobre a realidade, nem tampouco indicada para essa faixa etária. A partir daí, um novo corpus se constituiu, voltado para a juventude e que se tornou fundamental para as crianças e jovens da época; livros que ajudariam também na educação e na iniciação desses jovens no mundo adulto. Neste corpus estão as obras de Perrault e outras três obras, que não foram escritas para crianças, mas que acabaram adotadas por ele. Trata-se de As mil e uma noites, As viagens de Gulliver e Robinson Crusoe. Esses livros viriam suprir as carências que a escola não havia conseguido suprir.
Todas essas obras tratam de “viagens extraordinárias” e abririam para as crianças uma janela para aquilo que se encontrava externo ao mundo dos adultos. Embora alguns dos heróis aqui sejam crianças, característica essencial nos contos de fadas e que aparecem nas obras da Condessa de Sègur, por exemplo, isso é apenas uma conseqüência do fato de que o adulto que aborda temas desconhecidos volta à infância para se encontrar no exterior desse mundo adulto, onde só se pode entrar através de exames e cerimônias, e cujos muros impedem que se veja o resto do mundo.
Pois Júlio Verne vai se inserir exatamente neste novo contexto, escrever sobre este resto do mundo antes negado às crianças e jovens, o público que ele desejou atingir. Com um cuidado de enciclopedista ele decidiu escrever exatamente para essa juventude, de forma a apresentar a ela este mundo desconhecido, ou conhecido apenas por certos adultos, reunindo literatura de viagem e educação. Ao escrever o “romance de ciência”, Júlio Verne renovou o gênero “didático”, dramatizando problemas científicos de maneira a torná-los uma literatura recreativa e ao mesmo tempo educativa.

Jules Gabriel Verne Allote, conhecido no Brasil como Júlio Verne, nasceu em Nantes, em 8 de Fevereiro de 1828. Cresceu e passou a infância nesta cidade portuária, o que poderia explicar sua fascinação por navios e viagens desde cedo.
Era filho de Sophie Allote de la Fuÿe e Pierre Verne, um advogado proeminente, que o incentivou a cursar Direito, o que Júlio Verne fez apenas para satisfazêe ao pai. Mas a literatura sempre esteve presente em sua vida; participava de tertúlias literárias e conheceu importantes personalidades contemporâneas da literatura francesa, como Victor Hugo e Alexandre Dumas Filho.
Escreveu sua primeira peça de teatro aos vinte e dois anos e um ano depois, em 1851, seu primeiro conto de ficção científica, Un Voyage En Ballon. Mas não conseguia viver exclusivamente da escrita, então foi trabalhar como operador financeiro. Em 1859, casou-se com Honorine Anne Hébe Fraysse de Viane, com quem teve seu único filho, Michel Jean Pierre Verne. Arranjou um emprego na Bolsa de Paris para sustentar a família, enquanto escrevia nas horas vagas.

Júlio Verne soube interpretar com precisão o pensamento da sociedade de seu tempo e suas inquietações sociais, causadas pelas contínuas transformações técnica e científica que afetariam toda a sociedade. A ciência, sempre presente na obra de Júlio Verne, era a solução mágica que substituiria deuses, fadas, talismãs e varinhas de condão, onde os poderes mágicos seriam antes frutos do pensamento lógico.
Segundo Isaac Asimov, ficção científica é “o ramo da literatura que trata das respostas do homem às mudanças ocorridas ao nível da ciência e da tecnologia”; nascida neste contexto de grandes avanços dos tempos de Júlio Verne, que se apoderou deste gênero, a ficção científica retoma os temas de viagens que existiam desde os clássicos, como Odisséia, para dar-lhes uma nova roupagem. Verne acreditava no progresso social aliado ao progresso científico que permitiria ao homem o domínio da natureza e de suas riquezas para se desenvolver.

Logo surgiu nele um interesse por máquinas, invenções e viagens pelo mundo e a partir daí ele passou a estudar revistas científicas e livros que falavam dessas invenções e novidades. A partir dessas leituras, criou um arquivo que abrangia os mais diversos assuntos e que seria depois usado em seus romances. Entre os assuntos que ele estudou estão Física, Química, Geologia, Botânica, Biologia, Matemática, Astronomia, História e Geografia. Ou seja, pouco escapou ao seu conhecimento na época.
Sua vida mudou a partir do momento que conheceu o editor e também autor de livros infanto-juvenis Pierre-Jules Hetzel, que demonstrou interesse em publicar a sua série Viagens Extraordinárias através de Mundos Conhecidos e Desconhecidos, definida como uma viagem ordinária, no espaço ou no tempo, um percurso de um determinado ponto a outro, pelos mais variados meios de locomoção e onde ele utilizaria todo conhecimento adquirido em seus estudos científicos para trazer as mais recentes descobertas científicas até seus leitores. Seu editor definiu assim as Viagens Extraordinárias: “... Seu objetivo é, efetivamente, resumir todos os conhecimentos geográficos, geológicos, físicos, astronômicos, recolhidos pela ciência moderna, e refazer sob a forma atraente e pitoresca que lhe é própria (a Verne), a história do universo”. Esta série é composta de 54 obras, entre elas Viagem ao Centro da Terra, Vinte Mil Léguas Submarinas e A Ilha de Hélice, entre outras. E é a partir daí que Verne começa a viver apenas de sua literatura. Suas histórias continham tantos detalhes minuciosos de coordenadas geográficas, culturas, animais, etc., que os leitores se perguntavam se era ficção ou um relato verídico, fazendo com que o leitor se sentisse como se fizesse as viagens junto com o autor.

Verne é considerado por críticos literários o precursor do gênero de ficção científica, tendo feito predições em seus livros sobre o aparecimento de novos avanços científicos como submarinos, máquinas voadoras e a viagem à Lua. Seus romances, geralmente deste gênero, eram bastante convincentes e realistas. Através de seus romances e sua ação ele desejava comprovar ou refutar teorias científicas. Em 1865, tornou-se membro da Sociedade de Paris, onde ficou amigo de cientistas famosos também membros dessa sociedade, o que lhe garantia informações antecipadas e privilegiadas das mais variadas descobertas científicas da época; por isso, ele tinha consciência de que contribuía, com as suas obras, para a divulgação dos conhecimentos da época. Daí o caráter visionário que suas obras sempre tiveram.
Depois de ter dado ao mundo uma centena de romances e novelas, Verne morre no dia 24 de Março de 1905, aos 77 anos, cercado pela mulher e filho, na sua casa em Amiens.
E agora nós vamos ver um pouco desta imaginação criadora de Júlio Verne representada em algumas de suas obras.

Em As tribulações de um Chinês na China, de 1879, Verne fala do vapor e da eletricidade como geradores do progresso. Júlio Verne em suas obras já previa a chegada de uma época de grandes descobertas onde o vapor e a eletricidade seriam ultrapassados como força motriz e que se os homens não se cuidassem, poderiam ser engolidos pelas novas máquinas que estavam por criar. Era a era do maquinismo, onde as fontes energéticas passariam a ser exploradas ao máximo.
Em O Castelo dos Cárpatos, de 1892, Verne já avisa: “Vivemos uma época em que tudo acontece, e em que, aliás, quase tudo tem acontecido. Se a nossa narrativa não é verossímil hoje, pode sê-lo amanhã, graças aos recursos científicos que são a promessa do futuro e ninguém pensaria em pô-la na categoria das lendas”. A preocupação de Verne aqui é a verossimilhança científica, uma das principais características de sua obra. Ele parecia capaz de prever as modificações científicas que estavam por vir e o impacto que essas modificações causariam.

Em Cinco Semanas em um Balão, de 1863, Verne forneceu todo o projeto necessário para a construção de balões e a forma de energia utilizada como combustível por ele, o hidrogênio, foi considerada uma invenção sua. A partir daí, o gás hidrogênio passaria a ser utilizado como combustível, inclusive para dirigíveis, como o Zeppelin. Esta utilização foi mais tarde ampliada para uso em foguetes militares e outras aplicações energéticas.
Em Da Terra à Lua, de 1865, o antigo sonho do homem de voar finalmente é realizado. Verne utiliza a idéia de um projétil para lançar um homem à Lua, atingindo seu intento através de cálculos meticulosamente fornecidos no livro e que mais tarde serviriam de inspiração para cientistas. A nave tripulada Apollo 11, lançada pela NASA em 1969, iria apresentar semelhanças assombrosas com aquela construída por Júlio Verne nesta sua obra. Conhecedor de antigos projetos sobre o assunto, Verne relatou neste livro o envio de uma nave de alumínio tripulada com destino à lua. E aí se encontra também outra previsão de Verne: o uso do alumínio de forma inédita até então nos transportes, hoje largamente desenvolvida.

Em Robur, O Conquistador, de 1886, Verne surpreende novamente ao sugerir uma máquina capaz de voar movida a eletricidade gerada por pilhas e acumuladores. Sabe-se também que Verne inspirou Santos Dumont a construir um aparelho com características semelhantes às desenvolvidas por Verne nesta obra, um aparelho mais pesado que o ar e que pudesse ser dirigida, onde a veracidade dos cálculos de Verne foram colocados à prova.
Em O Senhor do Mundo, de 1904, Verne nos apresenta o “Assombro”, uma máquina capaz de se mover na terra, na água e no ar, algo verificável hoje em dia tanto em hidroaviões, criados em 1910, quanto em carros que são capazes de voar sobre as águas como barcos.

Em Viagem ao Centro da Terra, de 1864, Verne discute se a Terra seria ou não oca e onde estaria localizada a entrada para o seu centro, no caso, na Islândia, segundo Verne. Ele discute também o passado geológico da Terra através das camadas que seus personagens vão atravessando à medida que se aprofundam no centro da mesma, bem como desenvolve cálculos matemáticos para provar sua teoria quanto ao aquecimento de seu interior. A teoria de Humphry Davy, cientista que acreditava que o interior da Terra não poderia ser uma massa líquida incandescente, e a teoria de Poisson, que acreditava na inexistência do calor central, são mencionadas, bem como o cálculo do aumento de temperatura conforme a variação da profundidade.
Em Vinte Mil Léguas Submarinas, de 1870, Júlio Verne cria o submarino “Nautilus”, um meio de os homens atingirem as profundezas do mar. A idéia da navegação submarina já existia desde Leonardo Da Vinci, mas o submarino que Verne apresentou lá era diferente de tudo o que já se havia tentado antes. Seu maior mérito estava em fornecer medidas exatas para a construção do submarino; além disso, o submarino se movia graças à energia fornecida por pilhas de sódio, que só mais tarde seriam desenvolvidas, já que as pilhas desenvolvidas até então, eram as de cobre e zinco. As pilhas de sódio que moviam o Nautilus anteciparam em mais de cem anos as baterias de sódio e enxofre criadas posteriormente. Outra idéia de Verne colocada nesta obra, era a de que o mar poderia prover energia elétrica de suas profundezas, idéia esta desenvolvida apenas posteriormente, quando cientistas demonstraram a viabilidade econômica de se explorar a energia térmica dos mares.
Em A Ilha de Hélice, de 1871, outra premonição de Verne. Desta vez era a idéia de uma cidade flutuante e auto-sustentável. Sua energia era auto-gerada, cabos submarinos a ligavam ao litoral e outras tantas criações de Verne tornavam a vida lá possível. Hoje, o que se vê são plataformas petrolíferas totalmente independentes e ligadas por cabos submarinos à costa. Segundo Júlio Verne, “... o século XX não acabará sem que os mares sejam sulcados por cidades flutuantes. Deve ser a última palavra do progresso”. Mais premonitório impossível.

Júlio Verne transmitiu em seus romances científicos idéias como o conhecimento como um bem de todos, a natureza como fonte de energia e a serviço de um homem consciente, a educação e a instrução como direito de todos, fazendo de seus romances, além de um meio de comunicação, uma fonte de inspiração. Para isso ele examinava cada informação científica detalhadamente antes de colocá-las em seus livros, transformando a ciência de Viagens Extraordinárias em um “componente mágico do mundo das novas fontes de energia”. Energia esta que Verne via se esgotando rapidamente e onde somente a renovação restaria como caminho. Para ele, apenas a adequada distribuição desta energia levaria o homem ao rumo certo. Infelizmente esta previsão de Júlio Verne não se concretizou. As desigualdades mundiais que vemos hoje em dia se estendem, além da distribuição, à exploração e à manutenção das reservas naturais existentes no planeta, resultando num mar de desigualdades sociais que nem mesmo Júlio Verne poderia prever aonde vão nos levar.

Bibliografia:

  • BELLOUR, Raymond et al. Júlio Verne – uma literatura revolucionária. Tradução T. C. Netto. São Paulo: Documentos, 1969.
  • COUTINHO, Berenice Cabral de Moura. Energia e Antecipação Tecnológica na Obra de Jules Verne. Dissertação de Mestrado – Instituto de Eletrotécnica e Energia – Universidade de São Paulo. São Paulo: 1994.
  • VERNE, Júlio. Viagem ao Centro da Terra. Tradução de José Alberto Fomm Damásio. São Paulo: Hemus.


Webgrafia:

Um comentário:

Frederico J. disse...

Que belo texto!
Fica convidada a participar com o seu texto no meu blog dedicado ao escritor:
www.jvernept.blogspot.com

Cumprimentos